04/09/2026Notícia
Renegociação não basta para tirar produtor do ciclo de endividamento
Publicada em 04 de Setembro de 2026 às 09:42
Renegociar uma dívida rural não significa necessariamente recuperar a capacidade de pagá-la. Depois das sucessivas reestruturações de débitos realizadas no Rio Grande do Sul, o teste estará no caixa das propriedades: os novos prazos precisarão ser compatíveis com a renda da atividade e permitir que o produtor volte a amortizar efetivamente o principal.
“A principal questão é verificar se a renegociação alterou apenas a data de pagamento ou se efetivamente restabeleceu a capacidade de o produtor pagar a dívida com a renda da atividade”, afirma o gerente de Dados Agro da Serasa Experian, Frederico Poleto.
A avaliação ganha relevância diante do volume de crédito rural que precisou ser reestruturado no Estado. Em junho, as operações renegociadas somavam R$ 23,2 bilhões, segundo dados do Banco Central (BC), após sucessivos eventos climáticos e diferentes medidas de prorrogação e renegociação adotadas nos últimos anos.
Para avaliar se os novos compromissos são sustentáveis, Poleto explica que o cronograma de pagamento deve considerar projeções conservadoras de produtividade, preços, custos, margens e necessidade de capital de giro, respeitando também o ciclo de receitas de cada propriedade.
Uma das referências utilizadas na análise de risco é a chamada cobertura do serviço da dívida, relação entre o caixa disponível para pagamento e o total de principal e juros com vencimento no período. Quando o resultado fica abaixo de 1, explica Poleto, significa que a propriedade não gera recursos suficientes para cumprir os compromissos, mesmo depois da renegociação.
Superar esse patamar, porém, não basta. É necessário manter margem para absorver novas oscilações de produtividade, preços e custos – variáveis particularmente relevantes em uma atividade sujeita tanto às condições de mercado quanto ao clima.
Os sinais de que a reestruturação funcionou começam a aparecer depois do acordo. Pagamento pontual das primeiras parcelas, amortização efetiva do principal, estabilização ou redução do saldo devedor e recuperação da produção e da margem operacional indicam melhora da condição financeira.
O movimento contrário acende o alerta: renegociações sucessivas, incorporação recorrente de juros ao saldo, carências prolongadas sem capacidade demonstrada de amortização, crescimento da dívida mesmo após pagamentos e contratação de crédito de curto prazo apenas para quitar compromissos anteriores. Novos atrasos com bancos ou fornecedores também indicam que o problema persiste.
Para o advogado Guilherme Caprara, especialista em reestruturação e insolvência e sócio fundador do MSC Advogados, a fronteira está justamente na capacidade de geração de caixa. Se a renegociação muda o vencimento, mas o produtor continua sem recursos suficientes para pagar a dívida, uma dificuldade inicialmente temporária pode ter se transformado em um problema estrutural de endividamento.
Entre os sinais apontados por Caprara estão a necessidade recorrente de novas carências ou renegociações, aumento do endividamento, dificuldade para amortizar o principal e busca de novo crédito para pagar dívidas anteriores.
Por isso, o volume de contratos ou recursos renegociados, isoladamente, não permite medir o sucesso das medidas de reestruturação. A resposta dependerá do comportamento das operações depois dos acordos e, especialmente, do desempenho econômico das propriedades nas safras seguintes.
“A assinatura da renegociação é apenas o início do processo. Sua eficácia só pode ser comprovada pelo comportamento do pagamento e pela geração de caixa nas safras seguintes”, afirma Poleto.
“Uma boa renegociação funciona como uma ponte para a recuperação. Uma renegociação mal dimensionada apenas transfere o problema para uma data futura.”